Uma nova pandemia? MPOX – tudo que se sabe até agora

Nos últimos dias, o aumento recente de notificações de mpox em diferentes regiões do Brasil trouxe novamente o tema para o centro das conversas sobre saúde pública. Em Barretos, a repercussão também gerou dúvidas e apreensão. Afinal, estamos diante de um novo surto? A doença voltou com força? Há risco para a população em geral? Para responder a essas perguntas, é preciso olhar para a história da mpox e entender como ela evoluiu até o momento atual.

Apesar de ter ganhado notoriedade nos últimos anos, a mpox não é uma doença nova. O vírus foi identificado na década de 1950 e o primeiro caso humano ocorreu em 1970, na África. Ele pertence à mesma família do vírus da varíola humana, os chamados orthopoxvírus. São “parentes” próximos do ponto de vista biológico, o que explica algumas semelhanças clínicas entre as doenças, como as lesões cutâneas características. A grande diferença é que a varíola humana era muito mais grave e altamente transmissível, tendo sido erradicada mundialmente em 1980 graças à vacinação em massa. Já a mpox costuma apresentar evolução mais branda na maioria dos casos.

Essa relação familiar entre os vírus é importante também para entender a vacina. O imunizante utilizado contra mpox é baseado no vírus vaccinia, que é outro integrante da mesma família dos orthopoxvírus. O vaccinia não é o vírus da varíola propriamente dito, mas um vírus semelhante, enfraquecido e modificado para estimular o sistema imunológico com segurança. Foi justamente uma vacina com esse princípio que permitiu a erradicação da varíola no século passado, e hoje a mesma estratégia é utilizada para oferecer proteção contra a mpox.

Durante muitos anos, a mpox permaneceu restrita principalmente a regiões da África Central e Ocidental, sendo considerada uma zoonose rara, associada ao contato com animais silvestres infectados. Fora dessas áreas, praticamente não fazia parte da rotina médica. Esse cenário mudou de forma marcante em 2022, quando diversos países começaram a registrar casos simultaneamente, sem relação direta com viagens às áreas tradicionalmente endêmicas. A transmissão passou a ocorrer de forma sustentada entre pessoas, especialmente por meio de contato íntimo próximo. O mundo acompanhou, então, a maior epidemia de mpox já registrada fora da África. A Organização Mundial da Saúde declarou emergência internacional, e o Brasil registrou milhares de casos naquele período.

Entre 2022 e 2023, a combinação de informação, mudança de comportamento e vacinação direcionada contribuiu para a redução expressiva dos casos. A emergência internacional foi posteriormente encerrada, mas o vírus não desapareceu. Ele continua circulando de forma mais discreta, com aumentos pontuais que exigem vigilância constante. No Brasil, a vacinação não está disponível para toda a população. O Ministério da Saúde adotou uma estratégia de público-alvo específico. Estão entre os grupos priorizados pessoas que vivem com HIV com imunossupressão mais significativa, especialmente com contagem baixa de linfócitos CD4; profissionais de laboratório que trabalham diretamente com o vírus; e pessoas que tiveram contato próximo com casos confirmados, em situações avaliadas pela vigilância epidemiológica.

O esquema vacinal preconizado é composto por duas doses, aplicadas com intervalo de quatro semanas. A proteção não é imediata: o organismo leva alguns dias para iniciar a resposta imunológica e a eficácia é maior após a segunda dose. Estudos indicam que a vacina pode alcançar cerca de 80% a 85% de proteção contra a infecção sintomática, além de contribuir para reduzir formas graves da doença. Na prática, isso significa que não há campanha aberta nas unidades básicas de saúde para procura espontânea. A vacinação segue fluxos definidos pela vigilância epidemiológica regional e estadual, com indicação baseada em critérios técnicos e disponibilidade de doses.

“É importante reforçar que a mpox não se transmite com facilidade em interações sociais comuns do cotidiano. A transmissão ocorre principalmente por contato direto com lesões, secreções ou contato íntimo prolongado. Os sintomas podem incluir febre, dor no corpo, aumento de gânglios e lesões cutâneas que evoluem de manchas para bolhas e crostas. Em muitos casos recentes, as lesões são poucas e localizadas, o que pode dificultar o reconhecimento inicial.”

Para a população barretense, a principal mensagem é de equilíbrio. A mpox é uma doença conhecida, com formas claras de prevenção e controle. O momento exige atenção e informação de qualidade, não pânico. Manter constante higiene das mãos, evitar contato direto com lesões suspeitas e procurar atendimento médico ao surgirem sintomas são atitudes suficientes para reduzir riscos. A experiência recente mostrou que informação correta é a melhor ferramenta contra o medo. Com vigilância ativa e orientação adequada, estamos preparados para enfrentar o cenário atual com serenidade, responsabilidade e confiança na ciência. Dra. Gabriela Silveira é médica infectologista, formada em 2010 pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas).

Realizou residência médica em Infectologia pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz-RJ), com sólida formação em doenças infecciosas, epidemiologia, saúde pública e medicina baseada em evidências. Atualmente, está como coordenadora do Serviço de Controle de Infecções Hospitalares Relacionadas à Assistência à Saúde do Hospital Regional de Bebedouro (gestão Hospital de Amor). Atua em consultório no Vitta Care Centro Médico, com foco em diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças infecciosas em adultos, oferecendo acompanhamento individualizado, orientação em medicina de viagem e manejo de infecções recorrentes.

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