Júlio Zacarin Neto fala ao Connect em regresso à Câmara

Publicado em 3 de junho de 2015 às 14h09

 

Após sua passagem pela secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Marketing, a convite da prefeita Silvia Meira, o vereador Júlio Zacarin Neto (PPS) retorna à Câmara Municipal, ao colocar o cargo à disposição na quarta-feira (27).

Recentemente, em horário nobre de rádio local, Júlio Zacarin causou espanto ao desabafar e trazer à tona, ao vivo, as dificuldades que vinha enfrentando na secretaria. Dias após, comunicou seu afastamento do cargo, por não enxergar melhorias. O suplente Júlio Raposo do Amaral Neto, que ocupava sua vaga após a mudança, deixa o Legislativo.

Em conversa com o Jornal Connect na tarde de terça-feira (2), em seu gabinete na Câmara, o político contou um pouco mais do que enfrentou enquanto fazia parte do quadro de secretários do Executivo, durante este um ano em que lá esteve, e seus planos no retorno à Câmara Municipal.

Jornal Connect – Qual foi a sensação de ocupar a cadeira de secretário de Indústria e Comércio?

Júlio Zacarin Neto – A sensação, em um primeiro momento, foi de encantamento. Por tudo que poderia ser feito pela cidade, pois vontade não me faltava, e não me falta até hoje. E acabei acreditando que ali encontraria suporte para desenvolver projetos que Monte Alto precisa. Tinha em mente as secretarias atuando junto comigo,  para trazermos desenvolvimento à cidade. Mas, aos poucos, a gente acaba percebendo que o desejo é bem distante da realidade.
Quando a gente percebe que uma equipe está morosa, cansada, desmotivada, acabamos nos sentindo sufocados e impotentes, e por isso que eu decidi voltar.

Jornal Connect – Essa desmotivação da equipe, conseguiu ver um motivo em especial?

Júlio Zacarin Neto – Com toda certeza! A equipe em si, é formada por cargos comissionados e funções gratificadas. A partir do momento em que se faz um decreto que reduz 25% do salário dessa equipe, e não manda embora quem merece, equipara-se o bom funcionário com o mau. O bom funcionário vê, o quanto que ele deu de sangue pelo governo, não dar em nada… e cruza os braços, não foi valorizado. Pior o funcionário público concursado, que tem a função gratificada de 50% e reduziu para 25%

Então, na verdade, se você não valoriza a sua equipe, como ela vai trabalhar pela administração? A gente vive hoje – e o governo não reconhece – uma greve branca, e já alertei várias vezes que o decreto criado não está sendo cumprido. Reduziu-se a questão salarial, disse que não teria novas contratações, e na saída de um advogado já contrata-se outro. Percebi que esse decreto foi feito “para inglês ver”, ele é aplicado quanto interessa, quando convém.

Jornal Connect – Dentro deste trabalho, neste tempo como secretário, qual o aprendizado?

Júlio Zacarin Neto – Aprendi que o Executivo é bem diferente do Legislativo, principalmente quando se tem vontade. Um exemplo, como vereador não daria para eu realizar a Feira do Artesanato, as pessoas me procuraram, pessoalmente fui demarcar o chão, até mesmo embaixo de sol quente. Me reuni com as pessoas, ouvi o que elas queriam, e desenvolvemos o projeto.

Outra questão foi a feira, na Praça São Benedito. Demarcamos o local, que antes era “uma terra de ninguém”, cada um ficava onde queria da forma como entendesse ser a correta, sem um controle. Com as mudanças e a organização da feira, do computador da minha sala eu sabia quem estava, o telefone e o que exatamente vendia. E fizemos também a reforma tão desejada daquele banheiro, que a tanto tempo era vítima de vandalismo, imundo e sem condições de uso, e deixamos ele disponível ao feirante.

Do Legislativo não conseguiria fazer isso, mas ainda são poucas as realizações perto do que estava planejado.

Jornal Connect – Qual a maior frustração durante este um ano como secretário?

Júlio Zacarin Neto – A ampliação do Distrito Industrial e a criação de um Distrito de Prestadores de Serviço e Comércio. Esta é a minha maior frustração, mas quando o orçamento é pequeno e não há um trabalho coordenado, pode ser qualquer pessoa, não vai conseguir executar. Sem forças se unindo em torno de algo, os sonhos nunca serão concretizados.

Jornal Connect – O relacionamento com o Executivo, com a prefeita, como foi?

Júlio Zacarin Neto – Várias discordâncias, todas levava até ela e nunca fui um secretário submisso. Aliás, o mandato de vereador me dava suporte para isso, porque se ela achasse ruim minha postura, eu voltava para a Câmara, óbvio. Acho que não serviria para cargo de confiança, porque a maior riqueza que uma pessoa pode ter é poder expressar sua opinião, e fiz isso.

Jornal Connet – Falta diálogo do Executivo com seus secretários?

Júlio Zacarin Neto – É um governo que já tem muitos compromissos! Que abarcou, dentro da equipe, pessoas que apoiaram as eleições em 2008. Entre a equipe que lá está, com seus vícios e acertos, e eu – um estranho no ninho -, quem iriam escolher? Eles, é óbvio.

A escolha do governo foi esta, optou-se por não corrigir as pessoas que erram e não demitir quem não produz, que é muita gente ali.

Jornal Connect – Na primeira sessão após o retorno, vimos uma  participação bastante ativa do Júlio como vereador. O que achou dos trabalhos?

Júlio Zacarin Neto – A sessão de ontem [dia 2] foi uma vitória da Câmara sobre a truculência do Executivo. Mandar projeto inconstitucional para a Casa, vou votar contra todos, pode ter certeza. Não serei uma oposição de “quanto pior melhor”, e não serei uma situação de “beija a mão”. Votarei o que é interessante para Monte Alto, e voto a favor com uma condição: desde que me convença que será útil para a cidade, e que fere os dispositivos constitucionais.

Minha obrigação na primeira sessão era estudar este projeto tão polêmico. Me baseei em cima de pareceres do IGAM, jurisprudências, amigos profissionais em Araraquara, e vi que o projeto estava cheio de vícios, não tinha como ser votado!

Não foi questão de revanchismo ou retaliação… foi uma questão de consciência de seguir a lei, e esta é a Casa de Leis, que deve agir de acordo do que reza a Constituição Federal.

Jornal Connect – Com seu retorno, assume a cadeira de presidente da Comissão de Justiça e Redação, muito importante e por onde passam todos os projetos. A experiência auxilia, certo?

Júlio Zacarin Neto – Eu fui presidente da Comissão no meu primeiro mandato, e fui reeleito na época, ficando os quatro anos (de 2005 a 2008) no cargo. Mas hoje tenho um amadurecimento maior, em 2005 era muito novo. Vamos acumulando experiências, conclui a nova graduação em Direito e tenho muito interesse no Direito Constitucional. Agora espero avaliar cada projeto sem pressão, sem pressa. A pressa faz com que o homem cometa erros, e a pressão coloca-o em uma posição desconfortável para redigir o que realmente ele pensa.

Jornal Connect – Planos para a nova etapa, retornando vereador?

Júlio Zacarin Neto – Voltei como muita vontade! De visitar bairros, porque antes ficava preso em uma mesa, de levantar os problemas de Monte Alto, exercer de fato o trabalho de vereador, próximo à população. Ter um compromisso com o montealtense, não com a Administração.

Hoje tenho mais tempo que em 2013, quando fazia faculdade. Mas, acima de tudo, estou cheio de vontade, e voltei a esta Câmara com garras, pode ter certeza.

Jornal Connect – A Câmara Municipal hoje, está diferente em que, de quando você saiu?

Júlio Zacarin Neto – Os vereadores estão analisando mais as proposituras, e vou explicar o porquê. Hoje a internet torna a informação muito mais acessível, e os vereadores hoje tem medo de votar algo que está absurdamente ilegal, com medo do prejuízo eleitoral lá na frente. É essencial a participação da população nesta divulgação, a presença dela nas sessões, ou acompanhando por internet… aliás, irei reclamar com o presidente [Baltazar Garcia] sobre a transmissão online, que tem sido horrível, e é preciso mudar isso. É com dinheiro público que está sendo pago, e a prestação de serviço tem que estar além do que está estabelecido no contrato, e não aquém.

Jornal Connet – Suas considerações finais.

Júlio Zacarin Neto – Não “desço” aqui para retalhar o Poder Executivo, mas para exercer um papel de independência. Em 2013 votei muito a favor da prefeitura, mas votei contra também. Deveria ter me posicionado contra em alguns momentos? Sim, com certeza.

Mas o quero afirmar neste momento é que irei levar em consideração dois pressupostos, para os projetos terem meu voto favorável: princípio da legalidade e da utilidade. Fora disso, não passará nada!

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